A Dança Dos Erros

O rádio sempre a tocar um coração avariado que não posso desligar.

18 Julho 2009

Como um risco de fogo na noite *

Helen Breznik


my hand between your knees
you turn from me and said the trapeze act was wonderful
but never meant to last




Lembro-me bem do seu olhar.
Ele atravessa ainda a minha alma.
Como um risco de fogo na noite.
Lembro-me bem do seu olhar.

(...)

Deve haver ilhas lá para o sul das coisas
onde sofrer seja uma coisa mais suave.
Onde viver custe menos ao pensamento,
e onde a gente possa fechar os olhos e adormecer ao sol
e acordar sem ter que pensar em responsabilidades sociais
nem no dia do mês ou da semana que é hoje.

Abrigo no peito, como a um inimigo que temo ofender,
um coração exageradamente espontâneo
que sente tudo o que eu sonho como se fosse real
,
que bate com o pé a melodia das canções que o meu pensamento canta.

Canções tristes, como as ruas estreitas quando chove.

Álvaro de Campos




(como alguém disse: canções que nos roubam o equilíbrio e - no final - nunca nos deixam cair.)

17 Julho 2009

Dá-me a tua melhor faca *

Loredana Guinicelli


dá-me a tua melhor faca
para cortarmos isto em dois
e amanhã esquecer


O desamor, pela minha experiência e observância - pelas minhas anotações num caderninho palerma que comprei numa loja de produtos étnicos - começa por ser uma massa informe, cuja forma final, o potencial desamado pressente, mas não aceita; e vai-lhe tocando, com trejeitos de escultor, na esperança de a desviar daí para outra coisa qualquer - assim como uma jarrinha inofensiva ou um bibelô murcho. O tempo não ajuda porque coze este tipo de massas, contribuindo para a sua solidificação. Além do mais - isto segundo a minha experiência, a minha observância pessoal e as minhas anotações no caderninho palerma, claro, claro: longe de mim querer estar para aqui a ditar leis sobre o assunto -, a massa do desamor tem uma filha-da-puta de uma espécie de memória intrínseca da forma definitiva que deve tomar, que a faz caminhar para ela com tanta convicção, que o desamado, que ainda não o é, não se livrará de o ser, por mais que a tente moldar com mãos subtis ou, num estádio mais avançado de solidificação, desbastar à martelada.
António Gregório


(encontrado aqui)

16 Julho 2009

Reconciliação

Oana Cambrea


Há-de uma grande estrela cair no meu colo...
A noite será de vigília,

E rezaremos em línguas
Entalhadas como harpas.

Será noite de reconciliação -
Há tanto Deus a derramar-se em nós.

Crianças são os nossos corações,
anseiam pela paz, doces-cansados.

E nossos lábios desejam beijar-se -
Porque hesitas?

Não faz meu coração fronteira com o teu?
O teu sangue não pára de dar cor às minhas faces.

Será noite de reconciliação,
Se nos dermos, a morte não virá.

Há-de uma grande estrela cair no meu colo.

Else Lasker-Schüler

15 Julho 2009

Metade

Loredana Guinicelli


Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio

que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
porque metade de mim é o que eu grito
mas a outra metade é silêncio
.

Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza

que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
porque metade de mim é partida
mas a outra metade é saudade
.

Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor

apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
porque metade de mim é o que ouço
mas a outra metade é o que calo
.

Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que eu mereço
e que essa tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
mas a outra metade é um vulcão
.

Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita em meu rosto num doce sorriso
que eu me lembro ter dado na infância
porque metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei
.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o teu silêncio me fale cada vez mais
porque metade de mim é abrigo
mas a outra metade é cansaço
.

Que a arte nos aponte uma resposta
mesmo que ela não saiba

e que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
porque metade de mim é plateia
e a outra metade é canção
.

E que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor
e a outra metade também
.

Oswaldo Montenegro

Remember Me *

Alice Lemarin


just for a little while
please... remember me


Nada se modera nem se suaviza na memória, que imagina e adorna cada momento. Nada se despoja, salvo a indiferença. Antes dizia: não me esqueças; agora: esquece-me por favor. No esquecimento está a minha esperança, na recordação a minha tortura; mas o mais terrível de tudo é que prefiro a recordação ao esquecimento, e a tortura à esperança.
Silvina Ocampo


(encontrado aqui)

14 Julho 2009

Epitáfio para o corpo

Katia Chausheva


wrecked poor naked and blind
i'm yours – i'm yours - right now


Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito
são suas obras completas.

João Cabral de Melo Neto

13 Julho 2009

your light will shine *

Akif [HAKAN] Celebi


Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma
cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados,
gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos.
E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por
Verões
.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma
cama
.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,

(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um aponta-
mento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor
mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.

Não te perdi a ti,
perdi o mundo.

Ingeborg Bachmann