Terça-feira, 27 de Maio de 2008

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Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.
António Ramos Rosa






[ Fechado. Para balanço. ]

Domingo, 25 de Maio de 2008

O Problema De Ser Norte

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Digo-te por isso
que não me obrigues a luz.
Que escrever não é fácil,
que viver não é fácil
quando começamos a frase a meio
.
Que lavo a cara ao chegar tão tarde
e mesmo assim o dia não se despega,
e mesmo assim
tu não estás, ninguém está.
Que não tenho espaço na minha secretária,
na minha vida, na minha cama
para tanto espaço.
Que já me disseram urbana,
e nem por isso me disseram decadente,
e que eu gostei.
Que já me disseram
muitas vezes
disfarçadamente triste,
e que por isso, por ser triste, por
sermos todos tristes, não mo deviam dizer.
Digo-te por isso
que não era minha intenção dizer-te mais uns versos
tristes e sem luz
, e por isso, só por isso,
não era minha intenção dizer-te nada.
Filipa Leal




Eu sabia. Ter o problema de ser norte entranhado no corpo e preso nas mãos, logo num domingo à tarde, mais parecia uma sentença de morte muito lenta. Já me tinham avisado. Mas ainda assim arrisquei. E fui mais longe. Pensei que podia arrumar de uma vez por todas algumas das minhas tristezas secretas. Pensá-las tanto até me cansar e deitá-las no caixote do lixo juntamente com o pacote dos lenços. Sentei-me numa das poucas esplanadas do Porto com vista para o rio e tentei que todas as inquietações fossem embora. Juro. Tentei encontrar solução para cada burburinho que me consome. Isto parece-me agora um tanto ridículo. Quando tudo se resume a um simples facto: eu não sei conduzir(-me) (n)a vida. Venha quem vier, hei-de refugiar-me no silêncio ou no sorriso fácil que não denuncia males maiores. Nos dias em que o espelho me devolve angústias acumuladas vou perder-me sozinha nos trilhos que já conheço de olhos fechados. Recuso-me. Tão simples quanto isto. Já não tenho nada a dizer. Traduzi-me numa frase ao acaso: eu não sei conduzir(-me) (n)a vida. E porque é assim, porque não tenho um rumo a seguir, vou sozinha. E não aceito boleias. Até porque parece já não haver lugar para os meus fantasmas.




Bem sabes:
Eu não sei como livrar-me do coração.
Filipa Leal